quarta-feira, 9 de setembro de 2015




O Espírito Santo e o avivamento: uma tentativa de compreender o movimento avivalista brasileiro (parte II)



I-                   A relação do Espírito Santo com o avivamento

a.      Espírito Santo como agente vivificador de toda a obra de Deus
                                                                          i.      O Espírito Santo é aquele que gera vida
A obra do Espírito é mais ampla do que normalmente temos ensinado. O Pai e o Filho conectam-se à criação por meio do Espírito. Na obra da criação a atividade do Espírito Santo é intimamente relacionada à obra do Pai e à do Filho, como afirma Kuyper,
“A obra do Espírito é intimamente ligada à do Pai e à do Filho, de modo que em todas as coisas, todo o homem e todos os talentos se originam no Pai, são dispostos em sua respectiva natureza através do Filho e recebem a centelha da vida pelo Espírito Santo”(KUYPER, 2010, p. 81)
Uma das maneiras como o Espírito conecta o Pai e o Filho com a criação é pela vivificação da criação. Enquanto o Espírito não atua a vida não pode ser manifesta. É por meio Dele que Adão deixa de ser pó e passa a ser alma vivente. “A obra do Espírito em cada criatura consiste, na vivificação e manutenção da vida com referência à sua existência e aos talentos, e, em seu sentido mais elevado, com referência à vida eterna, que é sua salvação” (KUYPER, 2010, p. 81).
O Espírito age como vivificador tanto na criação natural, quanto na recriação ou regeneração do homem. É o Espírito que na regeneração “acende a centelha da vida eterna” (KUYPER, 2010, p. 82)é o mesmo que na vida natural acendeu e sustentou a centelha.
O Espírito Santo é o doador da vida, da ordem, da organização. Ele desce sobre o caos e implanta ordem. “Mas independentemente das diferenças de escala de operação e de energia o Espírito Santo permanece na criação e recriação, o executor onipotente de toda a vida e vivificação, e é, portanto digno de todo nosso louvor e adoração.” (KUYPER, 2010, p. 82)
                                                                        ii.      O Espírito Santo é aquele que regenera o homem em seu estado de morto
Não se pode entender a regeneração num conceito reducionista de restaurar a uma forma anterior. Para Kuyper (2010, p. 83) “a graça de Deus não cria alguma coisa inerentemente nova, mas uma nova vida numa natureza velha e degradada.”
Regeneração nos remete ao “ato de Deus vivificar, que é o primeiro ato pelo qual Deus nos transporta da morte para a vida, do reino das trevas, para o reino do seu amado filho” (KUYPER, 2010, p. 312)
A regeneração é o primeiro ato no processo da salvação. Ela ocorre no momento em que Deus “se aproxima de uma pessoa nascida na iniquidade e morta em seus delitos e pecados e planta o princípio de uma nova vida espiritual.” (KUYPER, 2010, p. 312)
A ação regeneradora do Espírito implica em bem mais do que reconstruir o que o pecado destruiu, se assim entendermos o homem regenerado seria restituído a um tipo de vida pré queda, por que a “graça não transporta o ímpio para um estado de retidão, ela o justifica” (KUYPER, 2010, p. 84). O redimido não participa da natureza de Adão em seu estado de pré queda, mas sim, da natureza de Jesus, portanto, “o ímpio, quando justificado pela graça, nada tem a ver com o estado de Adão antes da queda, mas ocupa a posição de Jesus depois da ressureição.” (KUYPER, 2010, p. 84)
b.      O Espírito Santo como dinamizador da obra de Cristo
                                                                          i.      O derramamento do Espírito capacitou a igreja a cumprir a missão de Cristo
Muitos cristãos creem que a manifestação do Espírito Santo está restrita ao Novo Testamento. Mas como afirma Kuyper (2010, p. 147) “embora o Espírito estivesse atuante na antiga aliança, Ele só fora manifestado à igreja após a ascensão de Jesus, até então Ele é o Espírito aguardado.”
No Antigo Testamento a ação do Espírito Santo era para capacitar temporariamente os servos de Deus, (Ex 31.1-11; Ag 2.1-5; Zc 4.1-7). Essa capacitação especial do Espírito era específica para reis, sacerdotes e profetas. A habitação do Espírito no Antigo Testamento era diferente não no aspecto soteriológico, pois é impossível a regeneração sem a operação do Espírito, a diferença está no aspecto missiológico.
Os profetas (Is. 32.14 -16; Ez 11. 16,19-20; 36. 25-27,29,32; Zc 12.10) apontavam para um evento futuro em que o Espírito seria derramado de forma permanente. Dentre eles o profeta Joel (2.28) anuncia o derramamento do Espírito sobre toda a carne, de forma que aquilo que antes fora restrito a reis, profetas e sacerdotes agora será partilhado a todos, formando uma nação de sacerdotes reais.
“Essas profecias são evidências da convicção profética do Antigo Testamento de que a dispensação do Espírito Santo naqueles dias era excessivamente imperfeita, de que a dispensação real do Espírito Santo ainda estava por vir e de que somente nos dias do Messias ela viria em toda a sua plenitude e glória.” (KUYPER, 2010, p. 147)
O episódio do pentecoste é a concretização histórica daquilo que os profetas falaram. Os eventos que ocorreram naquele dia foram interpretados por Pedro como sendo o cumprimento da profecia de Joel. Naquele dia o Espírito foi derramado “sobre” a igreja, como uma dádiva divina, certamente para enfatizar mais o doador do que os receptores. “Por essa razão não se pode duvidar de que as Escrituras Sagradas tencionavam nos ensinar e convencer de que o derramamento do Espírito Santo no pentecoste foi a sua primeira e real vinda à igreja.”(KUYPER, 2010, p. 148).
Bruner (1986, pp. 128–9)  entende que o ministério de Jesus, pós ressurreição é realizado por meio intermédio do Espírito Santo. O que segundo ele torna a obra do Espirito uma extensão do ministério iniciado por Jesus, e agora continuado por ele, e os atos dos apóstolos são o fruto e a expressão desse ministério. O que Jesus começou em carne humana, agora é sequenciado por intermédio do Espírito através da igreja.

II-                A operação do Espírito Santo no Avivamento
Seria, certamente muita pretensão deste articulista fechar uma lista de operações do Espírito Santo em um avivamento. O que se pretende neste tópico é tão somente analisar alguns princípios que nos apontem para evidencias seguras de uma operação do Espírito Santo em um avivamento.
a.      Traz profunda convicção do pecado
Esta operação foi percebida por Jonathan Edwards no avivamento de 1735. “Naquele ambiente avivalista, [...] o pecado veio a ser entendido não só como um comportamento social inconveniente, mas um estado de rebelião contra Deus.” (MATTOS, 2006, p. 164). A ação santificadora do Espírito é notada quando sua presença é ativa no meio do povo de Deus. É ele que nos convence do juízo, da justiça e do pecado. (João 16.8).
O fenômeno que ocorreu em 1735 e observado por Edwards de que “em todas as conversões podia-se observar esse ponto comum: as pessoas se tornavam claramente conscientes da sua deplorável condição de pecadoras.” (MATTOS, 2006, p. 164) é claramente uma ação do Espírito. Nenhum pecador pode reconhecer-se nessa situação a não ser que do alto ele seja convencido.
Um avivamento em que as pessoas não se arrependam de seus pecados não pode ser originado pelo Espírito de Deus. O pecado causa separação de Deus, produz morte e é fétido às narinas de Deus.
“Edwards registra que algumas pessoas (foram) levadas a essa convicção por um grande senso de sua pecaminosidade em geral, de que (eram) criaturas tão vis e ímpias em seu coração e vida; outros (tiveram) colocados diante de si os pecados de sua vida de maneira extraordinária, multidões dos mesmos retornando novamente à sua memória e sendo colocados diante deles com os seus agravantes.” (MATTOS, 2006, p. 164).
A presença santa e santificadora do Espírito deve provocar naqueles a quem ele vivifica um anseio por pureza.  Uma das razões que levam pecadores a procurarem purificarem-se de seus maus caminhos é o temor pela ira de Deus. Jonathan Edwards reconhece que foi essa “profunda consciência da ira de Deus em relação ao pecado produziu um clamor geral os convertidos como consequência de seu senso pessoal de culpa.” (MATTOS, 2006, p. 164).
b.      Traz retorno às Escrituras
O uso das Escrituras é fundamental para que o avivamento seja sólido e autêntico e não seja tomado pelo fanatismo religioso. Shedd (SHEDD, 2004) observa que essa foi a grande marca do avivamento de 1907 na Coréia. “A forma como um avivamento inicia-se é variável, mas parece que a pregação foi fator primordial em cada um deles.” (EVANS, p. 13)A linha que separa a ação de Deus e o fanatismo religioso nem sempre é perceptível. É necessário que se estabeleça um parâmetro confiável, que nesse caso só pode ser a Escritura.
 “A visita de Jonathan Edwards a Enfield foi o começo do reavivamento que se espalhou por uma grande área. Naquela ocasião, 8 de julho de 1741, ele pregou sobre “pecadores nas mãos de um Deus irado” baseando suas observações em Deuteronômio 32.35.” (EVANS, p. 18)
Nos momentos de avivamento a fome e a sede pela Escritura se intensifica, por que é papel do Espírito Santo revelar o Filho, o verbo encarnado. “Visto que Ele deu a Palavra e iluminou a igreja, que Ele falou mais sobre o Pai e sobre o Filho do que de si mesmo [...] ele tinha de revelar o Pai e o Filho, antes que pudesse nos conduzir a uma comunhão mais íntima consigo mesmo.” (KUYPER, 2010, p. 47)
No avivamento de 1735 Edwards percebeu que a Palavra de Deus “tornou-se mais valorizada e sua pregação desejada de modo especial” (MATTOS, 2006, p. 165) Esse fenômeno acontece por que a Escritura atua eficazmente na mente do homem que tem a sua mente regenerada pelo Espírito Santo.  “A leitura das Escrituras conduz a nossa mente à esfera dos pensamentos divinos na medida certa para que nós, como pecadores, possamos glorificar a Deus, amar o próximo e salvar a nossa alma.” (KUYPER, 2010, p. 92).
O avivamento acaba com o descaso em relação ao ensino da Escritura. No avivamento há fome e sede pela Palavra de Deus. Algo que foi marcante em todos os avivamentos do passado foi a comunicação Palavra de Deus. No avivamento de 1735 houve fome e sede da Palavra, “cada ouvinte estava ávido em sorver as palavras do ministro à medida que saiam de sua boca.” (MATTOS, 2006, p. 165)O que torna a Palavra de Deus ativa é a ação de Deus. Como afirma Sheed (2004, p. 33) “sem essa operação especial de Deus, o ensino e a leitura da Bíblia se tornam rotineiras”.
Pedro faz uma exortação aos cristãos no sentido de se despirem de tudo aquilo que possa impedir a Palavra de Deus de ter seu efeito em nós. (1 Pedro 2.1-2). Esses pecados mencionados por Pedro prejudicam a eficácia da Palavra de Deus em nós, juntos eles prejudicam o nosso aproveitamento da palavra de Deus.
O cristão regenerado deve ter um desejo continuo pela Palavra de Deus. Uma nova vida requer uma alimentação adequada. O desejo pela Palavra é para que cresçam na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador (1 Pe 3.18). A Palavra de Deus não deixa o homem como o encontrou, mas opera nele transformações e o torna cada vez melhor.
Consequentemente, para conhecimento do assunto devemos retornar para aquela extraordinária Palavra de Deus, que, como um mistério dos mistérios ainda repousa incompreendida pela igreja, aparentemente inerte como pedra, mas uma pedra que faísca fogo. Quem porventura ainda não viu suas centelhas cintilantes? Onde está o filho de Deus cujo coração não foi inflamado pelo fogo dessa palavra?” (KUYPER, 2010, p. 45)
Aquele que se alimenta ininterruptamente da palavra de Deus cresce continuamente para a salvação.
c.       Amor sincero e leal a Deus
Paulo nos escreve que o amor de Deus é derramado em nós por meio do Espírito (Rm 5.5). “Um dos ministérios distintivos do Espírito Santo é derramar o amor de Deus em nossos corações.”(STOTT, 2000, p. 165). Esta é a primeira vez que se faz menção na epístola aos romanos da obra do Espírito na vida do eleito de Deus. É parte da operação do Espírito comunicar-nos o amor do Pai, neste tempo e no vindouro, pois:
 “Quando não houver mais pecado para ser expiado nem qualquer profundidade para ser santificada, quando todos os eleitos estiverem rejubilando diante do trono, mesmo então o Espírito Santo deverá realizar a obra divina de manter o Amor de Deus ativamente habitando em nosso coração.” (KUYPER, 2010, p. 526)
Neste ministério o Espírito atua em duas vias. Por um lado ele “proporciona-nos a consciência profunda e refrescante de que Deus nos ama”(STOTT, 2000, p. 165), e por outro lado Ele opera em nós o quebrantamento que o amor de Deus manifesto e derramado em nossos corações deve proporcionar, pois como pondera Calvino “o que Paulo nos ensina aqui [Rm 5.5] é que a genuína fonte de todo [nosso] amor está na convicção que os crentes nutrem do amor de Deus por eles” (2001, p. 186). Por que cremos e compreendemos o amor de Deus nos entregamos a esse amor. O amor de Deus é retroalimentado, quanto mais conheço o seu amor, mais eu o amo.
Quando opera um avivamento, o Espírito Santo reaviva nos corações o amor de Deus que fora derramado. Nos relembra da maravilhosa graça de Deus, manifesta na pessoa de Jesus entregue por amor de cada um de nós e nos constrange a amá-lo. Kuyper (2010, p. 526) argumenta que a vida espiritual é fruto de uma bendita união com o Pai e o Filho, num elo de amor mútuo. Esta é uma obra do Espirito, pois é Ele que entra em nossos corações realiza, aperfeiçoa e torna essa união com o Pai e com o Filho verdadeira.
É quase desconhecido de nós essa ação genuína e real do Espírito de manter em nosso coração a convicção do amor de Deus por nós. Por toda a nossa vida Ele agirá para remover de nós os obstáculos que o pecado coloca em nossa relação com o Pai, e o que restar na morte, Ele completará, de modo que pela obra do Espírito em nós poderemos manifestar o nosso amor leal e sincero a Deus.
d.      Imitação do caráter de Cristo
Quando Deus derrama o seu Espírito para avivar sua obra, a própria natureza de Deus é perceptível nos seus filhos. Não podemos conceber a ideia de um avivamento em que não seja visível a imitação do caráter de Cristo, por parte daqueles que foram visitados pelo Espírito. Um avivamento deve trazer como marca “a presença de uma nova natureza” (MATTOS, 2006, p. 173). É essa transformação de caráter que nos assegura a plena manifestação de Deus em meio do seu povo.
Por meio da operação do Espírito em nossa regeneração fomos feitos novo homem, segundo a imagem de Jesus Cristo (Ef 4.20-22). Como assegura Kuyper (2010, p. 339) “a ideia de que o homem pode ter vida fora da união mística com o Emanuel não passa de uma ficção da imaginação”.
Pelo Espírito fomos unidos a Cristo. Aquele que não está ligado ao Filho é como o galho que não permanece na videira, seca e será queimado (João 15.6). essa união com Cristo não é “efetuada pela instilação de um extrato de vida divino-humana na alma”(KUYPER, 2010, p. 349), mas pela nossa participação na natureza divina (2 Pe 1.4), na medida em que somos restaurados à semelhança que da natureza que perdemos por causa do pecado.
O que se espera num avivamento é que a presença de Cristo seja percebida na vida daqueles que foram unidos a Ele. As atitudes de Jesus devem ser vistas na vida das pessoas, o comportamento de Jesus deve ser reproduzido, a obediência, a humildade e o compromisso de Jesus devem práticas naturais na vida daqueles que se uniram a Ele. Isso é obra do Espírito na vida normal do povo de Deus, mas que se evidencia em tempos de avivamento, pois a perda dessa semelhança com o Senhor Jesus por si só caracteriza a necessidade do avivamento.


Bibliografia

BRUNER, F. D. Teologia do Espírito Santo. 2a ed. São Paulo - SP: Editora Vida Nova, 1986.
CALVINO, J. Romanos. 2a Edição ed.São Paulo - SP: Edições Parakletos, 2001.
CAMPOS, H. C. DE. Crescimento da Igreja: com reforma ou com reavivamento? Fides Reformata, v. Vol I, No1, 1996. São Paulo - SP.
EDWARDS, J. A genuína experiencia espiritual. 1a ed. São Paulo - SP: PES, 1993.
EVANS, E. Reavivamentos: Sua origem, progresso e realizações. São Paulo - SP: PES, .
KUYPER, A. A Obra do Espírito Santo. 1a ed. São Paulo - SP: Editora Cultura Cristã, 2010.
LLOYD-JONES, D. M. Avivamento. 1a ed. São Paulo - SP: PES, 1992.
LLOYD-JONES, D. M. Os Puritanos: suas origens e seus sucessores. São Paulo - SP: PES, 1993.
LLOYD-JONES, D. M. Estudos no livro de Habacuque. 5a ed. São Paulo - SP: Editora Vida, 1995.
MATTOS, L. R. F. DE. Jonathan Edwards e o avivamento brasileiro. 1a Edição ed.São Paulo - SP: Editora Cultura Cristã, 2006.
SHEDD, R. P. Avivamento e Renovação: em busca do poder transformador de Deus. São Paulo - SP: Shedd Publicações, 2004.
STOTT, J. R. W. A mensagem de 2 Timóteo. 3a ed. São Paulo - SP: ABU, 1989.


STOTT, J. R. W. A Mensagem de Romanos. 1a ed. São Paulo - SP: ABU, 2000.

Um comentário:

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