sexta-feira, 5 de junho de 2009

AS RELAÇÕES RACIAIS NA IGREJA - EXISTE OU NÃO PRECONCEITO NA IGREJA: Tiago 2. 1 - 13

Introdução:
1) O preconceito a brasileira.
O texto de Tiago é uma reprovação severa ao preconceito dentro da Igreja. Esta reprovação se faz necessária porque nossa cultura, como disse Florestan Fernandes “ tem preconceito do preconceito” . Raramente admitimos que temos preconceito, isto porque no Brasil, oficialmente não temos racismo ou preconceito.
O grande problema do preconceito a brasileira é a diversidade como ele se apresenta. O racismo americano é absoluto - preto / branco, enquanto que o brasileiro não é. A conseqüência disso, segundo o antropólogo Roberto da Mata “é a dificuldade de combater o nosso preconceito, que em certo sentido tem, pelo fato de ser variável, enorme e vantajosa invisibilidade” .
2) As raízes do preconceito a brasileira.
A origem do preconceito brasileiro remonta ao nosso início como povo. Nas palavras de Roberto da Mata; “ Temos um triângulo racial que impede uma visão histórica e social da nossa formação como sociedade. É que quando acreditamos que o Brasil foi feito de Negros, Índios e Brancos, estamos aceitando sem muita crítica a idéia de que esses contingentes humanos se encontraram de modo espontâneo, numa espécie de carnaval social e biológico. Mas nada disso é verdade. O fato contundente de nossa história é que somos um país feito por portugueses brancos e aristocratas, uma sociedade hierarquizada e que foi formada dentro de um quadro rígido de valores discriminatórios. Os portugueses já tinham uma legislação discriminatória contra os judeus, mouros e negros muito antes de terem chegado ao Brasil; e quando aqui chegaram apenas ampliaram estas formas de preconceito .
A mistura de raças foi um modo de esconder a profunda injustiça social contra os negros, índios e mulatos, pois situando no biológico uma questão profundamente social, econômica e política, deixava-se de lado a problemática mais básica da sociedade. De fato é mais fácil dizer que o Brasil foi formado por um triângulo de raças, o que nos conduz ao mito da democracia racial, do que assumir que somos uma sociedade hierarquizada, que opera por meio de gradações e que, por isso mesmo, pode admitir, entre o branco superior e o negro, pobre e inferior, uma série de critérios de classificação. Assim podemos situar as pessoas pela cor de sua pele ou pelo dinheiro; pelo poder que detêm ou pela feiúra de seus rostos; por pais e nomes de família, ou por sua conta bancária. As possibilidades são ilimitadas, e isso apenas nos diz de um sistema com enorme e até agora inabalável confiança no credo segundo o qual, dentro dele cada um sabe muito bem o seu lugar.
3) Os males do preconceito.
O preconceito e a discriminação provocam males tanto nas vítimas como nos autores deste mal. A discriminação não só frustra as aspirações de suas vítimas como produz amargura e hostilidade. Porque lhes é negado o sentido real de dignidade, de segurança, que é um sentimento resultado de ser aceito no mesmo nível de igualdade e importância com as demais pessoas da sociedade.
As vítimas do preconceito desenvolvem sentimentos de inferioridade e de humilhação, porque passam a acreditar que são parte inferior , o que provoca uma inibição de suas potencialidade. Ouvindo dizer continuamente que são inferiores as pessoas formam uma auto-imagem muito semelhante à aquela que lhe é atribuída. Muitas vezes esta situação os conduz a um ódio de si mesmo. Talvez o grande prejuízo do preconceito esteja na postura anti-social que ele desenvolve nas pessoas discriminadas. Seja qual for o caso, os sentimentos de inferioridade e humilhação comprometem as aspirações da pessoa, a sua capacidade de aprender, de se relacionar.
Por todos estes fatos, os males sociais decorrentes do preconceito rebaixam o nível de bem-estar da comunidade como um todo.
4) A Igreja de Cristo não pode fazer acepção de pessoas.
Quando me refiro à palavra preconceito, não quero me referir somente ao preconceito racial, a este e também ao preconceito social, classial.
A Igreja de Cristo não pode fazer acepção de pessoas porque isto não é da vontade do Senhor. Vivemos uma realidade, dura e cruel, porque os casos de favoritismo, de separação por níveis culturais, raciais, sociais e econômicos são patentes. E a igreja deve ser um padrão, um ponto de diferênciamento dentro da sociedade.
Quero oferecer três razões porque o preconceito deve estar fora da realidade, da vivência da Igreja:
I - O PRECONCEITO FERE O PRINCÍPIO DA UNIDADE DA FÉ (v. 1).
A- A igreja está edificada sobre um único Senhor
A igreja está edificada sobre a fé em Cristo como Senhor daqueles que se unem nesta fé comum, é convocada a ser, pela própria natureza, “ uma comunidade inclusiva e integradora “. Como disse Paulo ao escrever às igrejas da Galácia: “ Todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes. Dessarte não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” ( Gal 3. 27 - 28 ). A convicção do Novo Testamento é que Cristo veio trazer salvação, e essa salvação deve significar, por um lado reconciliação com Deus e por outro, reconciliação entre os homens.
A fé não distingue quem somos, o que somos, ela nos faz um em Cristo, que nos fez povo de Deus, criados a sua imagem, e isto nos torna iguais.
B- A igreja está fundamentada numa unidade essencial.
Essa nova unidade descoberta em Cristo, não é simplesmente espiritual; manifesta-se na vida comum da igreja. Devido a luta de homens como Paulo, Estevão, Pedro a igreja chegou a reconhecer o seu caráter supra-racial e supra-nacional.
O cristão descobre assim que Deus age na coletividade para dar origem a uma comunidade nova e inclusiva. É esse o propósito de Deus na criação, e aparece também nos seus julgamentos e continua a ser o seu objetivo na revelação do seu amor em Cristo, a unidade de seu povo, a formação de um povo .
II - O PRECONCEITO FERE O PRINCÍPIO DA GRAÇA (v . 2 - 5).
A- Cristo oferece salvação a todo o pecador sem distinção de cor, raça e posição social.
Como redentor Deus, oferece perdão a homens indignos de seu amor . O reino de Deus como declara Liston Pope, é “reino que supera castas.” Como redentor, Deus está formando uma comunidade universal que transcende as comunidades menores de família, classe, raça e nação; Os homens são chamados a agir juntos com Ele no sentido de que sua vontade seja cumprida.
B- A Graça me constrange a amar.
Em resposta à ação do redentor, cujo amor se nos apresenta como atributo dEle e como dádiva sua , o amor ao próximo deve ser aceito como exigência imposta por Ele ao homem.
A primeira resposta do cristão ao amor e perdão de Deus é portanto, humilde aceitação desse amor e desse perdão. Visto estar certo de que sua salvação, sua experiência do amor e da companhia de Deus, é completamente destituída de mérito, não lhe é permitido julgar o próximo e considerar-se mais justo do que ele. Pelo contrário o cristão é convocado, em humildade a confessar seu próprio pecado, seus atos maldosos e individuais, sua indiferença para com o próximo e a pobreza do seu amor. Deus nos chama para expressar em nossa relações com o próximo o amor que recebemos d’Ele. O cristão consciente do amor perdoador de Deus, sentir-se a livre para dedicar -se, daí por diante, ao bem do próximo, sem temer qualquer obstáculo.
III - O PRECONCEITO FERE O PRINCÍPIO DO AMOR ( V. 6 - 13 )
A- A maneira de Jesus amar é o nosso modelo.
Notamos que Jesus praticou e ensinou um amor que devia abranger a todos sem distinção de raça ou reputação. O Jesus que lemos nos evangelhos sempre tratou cada indivíduo como pessoa de dignidade, visto que considerava cada um como que necessitando de ser amado. Ele se misturava com publicanos e pecadores. Foi denunciado por fariseus por comer com publicanos. Curou o servo do centurião romano e se maravilhou da fé por ele demonstrada. E de maneira surpreendente e intencional, quando quis tornar claro o sentido do amor ao próximo , contou a história de um desprezível samaritano.
O reconhecimento da dignidade e da igualdade sempre foi parte do testemunho do cristianismo.
O ponto de partida para a compreensão dos relacionamentos entre as raças é a convicção de que Deus criou a todos os homens e que eles partilham do seu amor. Deus criou os homens para habitarem com ele como uma família, isto significa que o homem deve amar seu semelhante e reconhecer a sua responsabilidade e privilégio no estabelecimento de companheirismo e comunhão entre os filhos de Deus. Isto traz ao cristão a responsabilidade de ir ao encontro do próximo em suas necessidades, agindo de modo a ministrar às suas dificuldades de aceitação e consideração no plano da igualdade e dignidade, a criar as relações de companheirismo e de serviço mútuo, a favorecer a justiça na vida social a libertá-lo do reino da humilhação .
B- O amor cristão é movido em direção ao ser e não ao ter.
O combustível do amor cristão é a percepção da necessidade de receber amor que o meu semelhante tem. Essa sensibilidade, mobiliza meu coração transformado a amar aquela pessoa e querer o seu bem-estar, independente de sua posição social, racial ou econômica.
O amor cristão não anda por meio de interesse$ , porque não busca satisfazer seus próprios desejos, ( 1 Cor 13.5 ) , antes ele é altruísta.
Conclusão: A- O preço do preconceito
1) É pecado v.9
A palavra transgressor, quer dizer alguém que ultrapassa uma fronteira, que age continuamente contra uma lei conhecida, indica também alguém que se desvia do caminho. Tiago faz uso do conceito rabínico de que pecar é transgredir a lei. É como se a lei fosse uma corrente, seus elos permanecem juntos ou caem todos, e o conjunto depende de cada elo individual, assim se um dos elos forem quebrados, a lei inteira será quebrada.
2) Cria divisão
R.N. Champlin dia que este verbo literalmente significa fazer distinção, mas aqui em sentido moral, significa exercer duplicidade mental. O verbo tem numerosos significados, mas aqui parece que o melhor seria “ fazer distinção entre “.
3) Haverá julgamento para o preconceituos
Se tratamos sem misericórdia as pessoas, com discriminação, com favoritismo, devemos saber que haverá um juízo, e ele será sem misericórdia. ( Mar 4.24 ). Falar e proceder andam juntos. ( Col 3.17 ).
B- A tarefa da igreja na área do preconceito
1) Têm a responsabilidade de tornar clara a relevância da fé cristã para as questões de interesse social, em geral, e para as relações intergrupos em especial.
A igreja deve procurar a fé para qual foi chamada como testemunha e deve ser fiel na proclamação e interpretação desta fé ao mundo. Não basta falar vagamente da paternidade de Deus, da fraternidade do homem, do amor ao próximo. A significação destas coisas para as atuais áreas econômicas, educacional, política e religiosa deve ser honestamente enfrentada, pois é aqui que o próximo deve ser amado.
2) A igreja precisa interpretar sua própria missão perante o mundo.
A não ser que a compreensão do ministério profético, bem como do seu ministério sacerdotal fiquem bem claro, muitos cristãos continuarão a supor que a igreja não deve se envolver com os problemas de ordem social e muitos outros continuarão a pensar que ela deve endossar normas e padrões da cultura, como expressivos das formas e ideais do evangelho para estas áreas.
3) A igreja tem a responsabilidade de manifestar em sua própria vida a unidade e a fraternidade que proclama.
É clara a violação da natureza da igreja como comunidade supra-racial dos que compartilham uma fé comum em Cristo. Neste sentido a responsabilidade primária da igreja nas relações raciais é “ser a igreja”. Isto significa que cada igreja deve ser racialmente inclusiva no sentido de aceitar pessoas de todos os grupos raciais.
4) A igreja tem a responsabilidade de trabalhar para a implantação da justiça na totalidade da ordem social.
Deve ela não somente tentar a transformação dos relacionamentos pessoais por uma ampla dose de boa vontade e agape, mas deve também , movida pelo mesmo amor, buscar a mudança e reconstrução das estruturas institucionais pelas quais as necessidades dos homens são atendidas ou não. Além disso ela deve tornar claro o caráter dinâmico da relação entre ética pessoal e justiça social. Não são apenas as pessoas transformadas que influem na qualidade moral da vida institucional da sociedade, mas a qualidade moral das instituições influi no desenvolvimento ético e espiritual dos indivíduos que fazem parte dessas instituições.
Reconhecer a necessidade de trabalhar para a implantação da justiça na ordem social, bem como para a transformação das relações pessoais implica a necessidade de atacar os muitos problemas que emergem do preconceito e da discriminação raciais no emprego, nos direitos civis, na educação. Isso implica a obrigatoriedade de ação no sentido de eliminar a discriminação e erradicar o preconceito.
Isso significa que as semelhanças entre os homens são muito maiores que as diferenças.
Que Deus nos abençoe e nos ajude a não sermos preconceituosos!
Pr. Antônio Rodrigues Siqueira.

Um comentário:

Antônio Neto disse...

Pr. Toím na net agora...
que Deus abençõe

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